20 de mai de 2017

O ódio à Democracia, de Jacques Rancière




Jacques Rancière. Filósofo francês, nascido em 10 de junho de 1940, lança no que concerne à sua mais recente obra, “O ódio à democracia”, objeto desta resenha.

Rancière considera que vivemos em sociedades que se denominam democráticas, em oposição a sociedades governadas por Estados sem lei ou por lei religiosa. Entretanto, o que significa vivermos em democracias? Quais os sentidos atribuídos à democracia e quais as resistências a ela? Quais as razões que geram o ódio à democracia?

O autor não somente explica o que seria o ódio à democracia em meio a sociedades democráticas da atualidade, como também a democracia do passado, sua expansão através das forças armadas, sua ligação ao homem burguês e a situação paradoxal, onde o autor critica o individualismo desencadeado pelo sistema democrático, onde é colocada como uma coisa boa para a elite, mas torna-se um desastre se toda a civilização tem acesso a ela.

“O ódio à democracia não é novidade, é tão velho quanto à democracia, e por uma razão muito simples: a própria palavra é a expressão de um ódio. Foi primeiro um insulto inventado na Grécia Antiga por aqueles que viam a ruína de toda ordem legitima no inominável governo de multidão. Continuou como sinônimo de abominação para todo os que acreditavam que o poder cabia de direito aos que a ele eram destinados por Nascimento ou eleito pela sua competência. (p. 8)”

Mas o foco do livro é o novo ódio à democracia, e o objetivo é explica-lo começando pelas criticas que serão feitas a América e seus métodos de espalhar sua democracia pelo mundo através das forças armadas.

Resumido, o novo ódio a democracia pode ser explicada então em uma tese simples: só existe uma democracia boa, a que reprime a catástrofe da civilização democrática, o desejo de que todos sejam iguais, e que todas as diferenças sejam respeitadas. 



O autor revela o paradoxo que é a democracia, onde existem dois adversários. E também a crise do governo democrático, uma consequência da intensidade da vida democrática, através de dois aspectos, e um identificava-se com o principio anarquista, que afirmava o poder do povo.

No primeiro capitulo fala-se da relação do nazismo a dominação democrática. Jacques trás a perspectiva de outros autores ao analisar totalitarismo e democracia como não sendo tão opostos. E a relação do nazismo a dominação democrática. Existem bases que confirmam que a democracia Europeia nasce do genocídio, isso porque democracia e judeus estão em oposições radicais. As tendências criminosas da Europa democrática seriam: pedir paz no Oriente Médio para solucionar o conflito israelo-palestino, e como solução para isso, eles exterminavam os judeus na Europa. 


Existe também uma contradição no trinfo da democracia, trazido de fora pela força aramadas. Existam aqueles que viam a democracia como o governo do povo por ele mesmo e, quando se levava a democracia para um país, não somente os benefícios lhe acompanhavam como também a burguesia. A democracia era vista como uma ascensão do autoritarismo caso não houvesse limites. Mas ao se opor ao seu inimigo que seria o governo autoritário, ditador, ele tornava-se exatamente aquele que controla um mal que se chama vida democrática. 

Outro ponto a ser discutido no livro é o fato de que essa vida democrática é o que provoca a crise do governo, já que ela afirma o poder do povo. 


Percebe-se que o totalitarismo e a democracia não têm tanta diferença e como ela foi introduzida forçadamente em outros países. O desmoronamento do império Soviético foi vista como uma vitória da democracia sobre o totalitarismo. O direito formal é construído a partir dai e tornam-se o primeiro alvo das criticas marxismo, tronando-se sinônimos o homem egoísta da sociedade democrática, e o homem egoísta da sociedade burguês. 

O homem egoísta no entendimento de Marx eram os detentores do meio de produção. 

O livro faz uma ligação das roupagens do homem egoísta chegando à mesma conclusão de Marx, quando comparam os detentores do meio de produção, os “indivíduos egoístas” por, “homens democráticos” ou “consumidores ávidos” (na perspectivada da sabedoria contemporânea). A democracia na teoria é o regime da igualdade, mas no que se refere aos direitos de mercado dos homens egoístas/indivíduo democrático. E assim identifica-se a igualdade democrática como a troca igual da prestação mercantil. 

O individualismo democrático, também será um dos pontos tratado pelo autor, através da preceptiva de alguns sociólogos e filósofos, onde a individualidade é colocada como uma coisa boa somente para a elite. 

Um governo democrático reafirma o poder do povo, nesse caso existe um principio anárquico explicado pelo autor como “vida democrática”, fundamentado na ausência de títulos para governar. Mas a democracia ateniense usava o sorteio, anulando a necessidade de titulo (interrompe a lógica tradicional segundo a qual comunidades são governadas por aqueles que têm títulos) criando a ilusão da “vida democrática” já que o povo tinha direito ao voto.





Essa democracia direta, não se compara com a democracia representativa atual. E a mudança vista como necessária é criticada pelo autor, que explica a falácia de que nossa sociedade moderna somente a democracia representativa convém devido crescimento populacional e territorial.

Conclui-se que democracia e representação em uma única linha são algo incoerente. O que chamamos de “democracia representativa” é a forma de funcionamento do Estado, fundamentado incialmente no privilegio das elites “naturais” (como por exemplo um regime monárquico, onde o poder é naturalmente passado para o filho do rei), e desviada aos poucos de sua função pelas lutas democráticas. O poder do eleito “natural” por titulo ou ascendências não existiria mais, porém o sorteio para eleger um representante faria com que o poder ainda permanecesse nas mãos de um grupo hegemônico, a elite dos eleitos do povo e a elite daqueles que nossas escolas formaram no conhecimento do funcionamento da sociedade.

Rancière conclui que não vivemos em democracias, e lista os direitos que temos em Estados oligárquicos, porém lista as vantagens desse tipo do Estado dito democrático, mas também seus limites. Como por exemplo, as eleições livres, mas essa eleição acaba garantindo o poder nas mãos da classe hegemônica. A administração não é corrompida, exceto na questão os contratos. A liberdade dos indivíduos é respeitada, mas à custa de notáveis exceções. A imprensa é livre, mas sem ajuda das potencias financeiras, não terá sucesso. Como dito anteriormente só existe uma democracia boa, a que reprime a catástrofe da civilização democrática.

Por fim percebe-se que atualmente vivemos em uma dita democracia onde as conquistadas de direitos foram promovidas pela ação democrática, mas a oligarquia desvia as paixões democráticas para os prazeres privados e as tornas insensíveis ao bem comum. O fenômeno oposto desse egoísmo é a paixão democrática, que incomoda os “candidatos de governo”, pois o desejo desencadeia a ideia de que a politica vai além de uma escolha entre oligarcas substituíveis. Nesse caso a ideia de que a política vai além as eleições, da escola de um representante. A virtude da escola popular, e a escola de um representante para solucionar os problemas da sociedade, que é assunto para o saber especialista, e não para a escolha do povo, é dois sistemas de razoes opostas, o autor sempre reafirma a contradição dos Estados democráticos e sua forma de agir.

As queixas usuais sobre a democracia ingovernável torna-se a forma de legitimar a necessidade de reprime a catástrofe da civilização democrática.

Por fim, percebe-se que Rancière traz uma critica a democracia representativa, a forma como ela foi expandida deixando um rastro de morte, as contradições dentro dos Estados democráticos, onde a igualdade democrática se estende a troca igual da prestação mercantil, e a forma de desviar as energias politicas excessivas, contidas na ação democrática para a busca da propriedade material (para Marx esse seria os detentores da propriedade privada) e esse desvio tinha um efeito duplo, que era tornar os cidadãos indiferentes ao bem publico (o que contraria um Estado real de Democracia).

Leviatã, de Thomas Hobbes


Thomas Hobbes, nascido em 1588, (matemático e filósofo inglês do século XVII) buscou nessa obra explicar a realidade política da sociedade inglesa do início do século XVII, período conturbado para os ingleses, tanto no campo cultural quanto no religioso e político.

O nome da obra, Leviatã, faz referência ao monstro bíblico, uma criatura mais temível e poderosa que logo iremos entender ao que se refere. O livro tem como tema central a organização social. Hobbes explica que os homens viviam em um estado de natureza, e que o homem é o lobo do próprio homem, e se não existe um estado pra regular as pessoas, o ser humano viverá em constante estado de guerra. O autor explana bastante sobre qualidades e aptidões do ser humano, os sentimentos, o que é amor, sonhos, ansiedade e etc... e essa é uma parte maçante do livro, mas importante. Ao contrario do que muitos falam, ( que eu mesma já disse em outra resenha) Hobbes não diz que o homem nasce mal, ele diz que o homem vive em constante estado de guerra, pois se um homem tem sua honra ferida, ele simplesmente ira tentar acabar com o outro porque não existem leis que evitem isso. Logo o mais fraco está a merecer do mais forte, mas...


“A natureza fez os homens tão iguais na faculdade físicas e mentais, que embora alguns sejam manifestadamente mais fortes ou mentalmente mais ágeis, quando se contemplam esses fatores em conjuntos a diferença entre eles não é tão considerável a ponto de levar um deles a postular para si mesmo, qualquer beneficio que o outro não possa reivindicar com o mesmo direito. Pois, quando a força física, o mais fraco tem vigor suficiente para matar o mais forte, ou por meio de maquinações secretas ou em confederação com outros  que coram o mesmo perigo.” 

Para evitar assim esse estado de guerra de todos contra todo, Hobbes, explica que o homem abre mão de seu estado de natureza ( os seus direitos naturais). Ele conclui que nossa sociedade deriva do pensamento contratualista, que abrange de teorias que tentam explica os caminhos que levam as pessoas a formarem governos, para manter a ordem, com um acordo que assinala o fim do estado natural, para um estado social politico.
 


Esse contrato é um pacto tão violento quanto à violência que o pacto deveria ter, e seria realizado entre homens e sem intervenção de princípios, decorrendo de sua natureza humana agressiva e marcada pela escassez (a fome e a insegurança), eles cederiam a um dentre os homens o atributo singular do exercício da violência, como por exemplo um Monarca, que deveria assegurar a pacificação entre eles pela demarcação nítida de um único poder que deveria ser exercido sobre todos. Isso porque os poderes iguais no reino de natureza humana gerariam a situação de isolamento, selvageria e barbárie, de guerra de todos contra todos. Desta forma o pacto seria a entrega das armas ao Soberano, e a obediência total que a ele teriam de prestar, por ser os responsável pelo pacto.

Hobbes define isso como um acordo entre os homens contra a natureza humana, pois seria impossível viver de maneira pacifica, sem que aja um controle que pudesse limita e reduzir a natureza humana agressiva. Outros autores como Jean-Jacques Rousseau, "desmentem" essa ideia pessimista de Hobbes sobre o Homem, e sinceramente reconheço fundamentos tanto na obra deste autor em questão quanto dos autores que refutam ele, mas não vou me aprofundar muito nisso. 

A vida social seria, portanto, algo de antinatural. Introduz-se uma cesura entre o indivíduo, que permanece considerado como “pura natureza” e o mundo da política, como o “local de contenção” dessa mesma natureza. Em segundo lugar, este contrato antinatural derivaria diretamente de uma natureza humana má (genericamente faminta e cruel). Nesse sentido, ele reuniria em si próprio o pior da natureza humana, sendo, por isso mesmo, um permanente monstro a espreitar, mas um monstro necessário, (O SOBERANO) capaz de conter, pela própria NÍVEL de sua monstruosidade, as pequenas monstruosidades que habitariam cada uma das pessoas. O terceiro ponto a considerar é que os indivíduos resultantes desse pacto seriam, ao mesmo tempo, seres naturais, no sentido forte do termo (e, enquanto natureza, inalteráveis), e seres de natureza contida, controlada, domesticada. A pacificação exigiria o emprego das armas, ou da violência (antes comum a todos) tornada privilégio apenas do Soberano ou daqueles investidos de tal poder.

O Estado – o contrato, o pacto, o Soberano – erguia-se, pois, como a antinatural que, de fato, deveria regular, dirigir, controlar a natureza humana. E, ainda que paradoxalmente, competiria a esse Estado exatamente assegurar direitos cuja origem derivaria da natureza (vida, liberdade, propriedade). Do pacto decorreria a sociedade civil, como uma entidade baseado numa oposição ao estado de natureza.



Esse contrato irá fazer surgir então o Monarca absolutista. O Leviatã do titulo do livro, é uma metáfora do poder absoluto dos reis do início da Idade Moderna e da Monarquia. E nesse Estado antinatural o povo poderia questionar esse Monarca ou até um líder religioso? Sim, mas o autor explica que era algo do qual eles poderiam ser reprimidos com violência, o leviatã poderia usar a força, e quando usada, a morte (dos que contrariam seu poder) seria culpa do próprio povo, pois o estado absolutista é fundamentado em um contrato, onde o poder do monarca é legitimado pelo próprio povo, que deu esse poder a ele.

O autor é bem mais especifico sobre isso, e por esse motivo recomendo a leitura do livro, onde Hobbes explica vários casos, e apesar de ter falado sobre um Soberano ( o monarca) o autor amplia mais o campo. 

29 de dez de 2016

Extraordinário, de R. J. Palacio



Não julguem um LIVRO (MENINO) pela CAPA (CARA)

Auggie é um menino que nasceu com uma síndrome genética cuja sequela é uma severa deformidade facial. Ele é um garoto Extraordinário. Nunca sentir tanta admiração por um personagem como o Auggie, que apesar de suas limitações e o preconceito alheio cria um manifesto em favor da gentileza.

"O mais engraçado é que se ele não tivesse posto a mochila entre nós dois, eu com certeza teria me oferecido para ajudá-lo." (PRIMEIRO DIA DE AULA).

O livro em si envolve vários personagens marcantes, e o ponto de vista das crianças que cercam o garoto.

"A única razão de eu não ser comum é que ninguém além de mim me enxerga dessa forma."

Por ter que passar por varias cirurgias faciais, Auggie nunca frequentou uma escola, e depois de anos, ele finalmente ingressa em uma. Ser o garoto novato já é ruim, mas ter a face de Auggie complica mais ainda às coisas. Mas sua visão perante a crueldade das demais crianças é totalmente analítica. Sua tese é ‘’As crianças não sabem o quanto podem ser cruéis’’. Ele é um garotinho muito maduro, muito consciente, e completamente compreensivo, que encara sua situação na medida do possível.

Apaixonei-me por quase todos os personagens desse livro, e espero que as pessoas percebam a mensagem que o autor nos deixa referente à pureza das relações da juventude, a evolução das crianças, as mudanças comportamentais, e como a criação dos pais influencia na forma como seus filhos vão encarar os ‘’Auggie’’ da nossa sociedade.
Summer é uma das garotas que cria laços com Auggie no primeiro dia de aula, uma garota dócil, e meiga que amei logo de cara. E temos o Julian que é um garoto que persegue Auggie na escola, e apesar de não agredi-lo fisicamente, o garoto é malcriado e ofensivo, e a historia envolve até os pais dessas crianças.

Os pais de Summer, entre outros pais, também amigos de Auggie, refletem a mesma solidariedade para com o nosso personagem, e os de Julian, que criam uma aversão pela criança, ao vê-lo como um empecilho para o desenvolvimento acadêmico dos seus filhos ao ter que se “misturar” com Auggie no ambiente escolar. E essa é a mensagem que vejo, ao ler o livro é; como os pais influenciam na tolerância dos seus filhos e o nível de gentileza e empatia pelo próximo.

Auggie começou o livro ainda com certa mágoa com relação a sua vida, e ao fim do livro, veremos um garoto completamente mudado. Ele passa a se aceitar (assim como seus amigos) e se amar, do jeito que ele é. E foi maravilhoso acompanhar esse desenvolvimento.

Ouso dizer que a história de Auggie me mudou. E tenho certeza que vocês também passarão a ver o mundo e as pessoas de forma diferente depois que lerem o livro. A narrativa é encantadora, delicada e emana pureza, gentileza e amor.


"Não precisamos dos olhos para amar, certo? Apenas sentimos dentro de nós."


O Filme baseado no livro Extraordinário ganha data de estreia no cinema, com Julia Roberts e Jacob Tremblay, o fofinho de O Quarto de Jack.

A Lionsgate, produtora responsável pelo filme, confirmou à revista Variety que o longa deve chegar aos cinemas norte-americanos em 7 de abril de 2017. Ainda não se sabe quando o filme estrearia no Brasil, mas é provável que seja perto desta data.